Elas entendem tudo de futebol

redacao 28 de junho de 2014 0

Foto: Jonathan Higino

Diante de um universo em que ícones como Galvão Bueno, José Trajano, Juca Kfouri, Luciano do Valle (1947 – 2014), Maurício Torres (1971 – 2014), Tadeu Schmidt, Tino Marcos, Tiago Leifert, Régis Rösing e tantos outros marcam história no jornalismo esportivo, surge uma lista de talentosas mulheres para quebrar paradigmas e desmistificar a predominância masculina no segmento. Entre nomes como Cris Dias, Fernanda Gentil, Joana de Assis, Renata Fan e outras, destacamos Michelle Giannella, Mylena Ciribelli e Paloma Tocci. Em época de Copa do Mundo, as três belas jornalistas e apresentadoras foram convidadas pela revista Em Dia a falarem do início de suas carreiras, preconceitos no esporte, violência no País e, é claro, sobre o Mundial, mostrando que mulheres também entendem, e muito, do assunto. Confira o bate-papo!

 

MICHELLE GIANNELLA

MOOQUENSE E TORCEDORA FANÁTICA DO JUVENTUS
Jornalista e advogada, Michelle saiu da produção de um programa de variedades e se viu mergulhada no mundo dos esportes. “Estagiei durante quatro anos em todos os setores da Fundação Cásper Líbero. Meu primeiro estágio, com a Maria Lídia no programa “Gazeta Meio Dia”, foi maravilhoso. Depois trabalhei na produção do “Mulheres”, fiz algumas reportagens e acabei sendo convidada para apresentar o “Gazeta Esportiva”. A transição foi difícil, trabalhava apenas com mulheres e acabei em um departamento que tinha 40 homens e umas 3 mulheres”.

 

Foto: Jonathan HiginoMYLENA CIRIBELLI

FLAMENGUISTA DA GEMA
Jornalista e apresentadora, Mylena estava acostumada com o clima masculino da rádio quando foi chamada para um programa esportivo: “Comecei na Fluminense FM, rádio de rock ‘n’ roll, que era um reduto masculino, havia poucas mulheres… Do rádio fui para a TV. Não pensava em fazer Jornalismo Esportivo, sempre tive influências do esporte porque meu pai era atleta. Na época eu estava na linha de shows da Manchete e eles precisaram de um apresentador para fazer o boletim das Olimpíadas. Então o diretor de jornalismo, Mauro Costa, mandou me perguntar se eu não queria ir para o jornalismo… Fui fazer os boletins das Olimpíadas de Seul. Aí gostei e também gostaram”, relembra.

 

Foto: Sidney Doll PALOMA TOCCI

A CARA DA BAND
Para a jornalista e apresentadora Paloma Tocci, fã do Real Madrid, o caminho das pedras também foi menos árduo: “Comecei no Jornalismo fazendo estágio no Band News, o canal de notícias 24 horas da Band. De lá fui trabalhar no jornal do Canal 21 (nome na época), que também fazia parte do grupo Bandeirantes. Fazia pauta e ajudava na redação. Quando esse projeto acabou, meu chefe disse que eu tinha a cara do esporte e sugeriu que eu procurasse por uma vaga lá. Fiz um teste de vídeo, gostaram e fiquei no departamento como trainee. Em um fim de semana, teve clássico São Paulo x Palmeiras no Morumbi e uma das equipes de reportagem ia para fazer apenas imagens da chegada de torcedores. Me ofereci para acompanhá-los e tentar fazer uma matéria de teste. Fiz, gostaram e aí virei repórter do esporte!”

 

O DE PRETO É O JUIZ

Para as três estava dada a largada na profissão. Mas ganhar credibilidade é um dos principais desafios para se dar bem no mundo jornalístico no geral, e no segmento esportivo, isso não é diferente. Ainda mais porque por séculos o mito ‘mulher não entende de futebol’ rondou os bastidores do esporte. E foi assim que Michelle, por exemplo, encontrou sua técnica: “Esporte não era a minha área e fui convidada para trabalhar com isso. Tive que me dedicar durante três anos e me preparar muito, lia todos os cadernos de esporte, fazia recortes. Hoje acompanho os jogos e leio um ou dois jornais. Com o tempo foi ficando uma coisa bastante natural. Quando eles perceberam, começaram a confiar mais no meu trabalho e me convidaram para integrar o “Mesa Redonda”, onde estou há 11 anos. É um programa que só tem feras”, conta.

Foto: Sidney Doll

Já Mylena tinha no sangue o DNA do esporte, filha do atleta Jomar Corrêa Ciribelli, ela estava acostumada com as modalidades esportivas e deve a ele também o know how que já tinha em 1988 quando foi chamada para cobrir as Olimpíadas de Seul: “Foi graças aos ensinamentos do meu pai que consegui, programa ao vivo é difícil. Talvez a ‘prova de fogo’ tenha sido o doping do Ben Johnson, porque naquela época a gente recebia as notícias pelas agências, hoje você tem o seu laptop ligado o tempo todo. Então enquanto eu estava no ar, veio o Fotos: Sidney Doll diretor correndo com um papel, não dava para entender nada do que estava escrito. Na hora do intervalo ele me explicou, voltou para mim e nós demos um furo na frente de todo mundo”. Na Copa de 1990 ela participou de sua primeira mesa redonda, “não sabia muito de esporte ainda, aí sentei na mesa com Zagallo, João Saldanha, Falcão, Armando Marques e outro convidado. Na primeira vez que participei, pensei: ‘Meu Deus, o que estou fazendo no meio dessas feras?!’. Mas acabou sendo tão aconchegante, fui aprendendo com essa galera toda, foram professores maravilhosos”, continua.

Paloma descreve: “Vivi grandes momentos. O Pan do Rio foi meu primeiro grande evento. A Copa das Confederações foi apaixonante, a Olimpíada de Pequim foi um amadurecimento enorme como profissional. Trabalhar na rádio Transamérica foi além da minha melhor terapia, já que o programa “Galera Gol” era muito bom de fazer, foi um grande aprendizado! Sinto falta. A Rede TV!, onde fiquei por dois anos, também me ajudou a evoluir. A volta ao Grupo Bandeirantes foi a consagração”.

Perder o Luciano (do Valle) foi muito triste. Ele era o gol que emocionava! Para quem é amante da profissão, sabe o tamanho dessa perda. Fiz o Band Esporte Clube no domingo, um dia depois do ocorrido e foi muito complicado. Toda a equipe atrás das câmeras estava abalada. A emoção quase tomou conta de mim, tive de me segurar bastante

TRABALHANDO E TORCENDO PELA SELEÇÃO

Unindo a experiência, que as três adquiriram ao longo de suas carreiras, ao amor pelo esporte, chegou a hora de as profissionais acompanharem a Copa mais esperada dos últimos tempos pelos brasileiros.

Foto: Jonathan HiginoMesmo sem os direitos da cobertura geral do Mundial, as emissoras Gazeta e Record estão trabalhando para mostrar as curiosidades do evento e dos atletas e turistas que estão no País. “Estamos fazendo uma transmissão alternativa no Mundial, mostrando os bastidores, um outro olhar, o que acontece ao redor do evento também”, explica Michelle.

“Temos repórteres lá na Granja Comary, seguindo mesmo a Seleção para poder informar tudo que está acontecendo, temos outros profissionais espalhados por vários Estados, por todas as cidades-sede tem uma equipe da Record”, detalha Mylena.

Já a Band, que diferentemente das outras emissoras possui os direitos de imagem, conta com a estreia de Paloma na competição e quando perguntamos como ela se sente, ela responde: “Puxa, como me sinto? Quem não gostaria de estar ao lado da Seleção Brasileira em todos os momentos durante a disputa do Mundial, ainda mais ele acontecendo no nosso país? Estou direto com a Seleção, viajando para onde ela for. Está sendo muito gostoso, ao mesmo tempo dá bastante trabalho. Todo aquele lance do furo de reportagem, aquela imagem que ninguém mostrou ainda, é muito bacana!”.

TODO MUNDO TEM UM ‘Q’ DE TÉCNICO

A bola já está rolando, a torcida que parecia adormecida está a postos. Mas sempre restam as dúvidas de como seria se um ou outro jogador estivesse em campo. “A surpresa foi o Henrique mesmo. Na verdade o Miranda estava em um momento melhor no Atlético de Madrid, por isso todo mundo ficou achando que seria ele. Vi o Felipão ser entrevistado tentando explicar por que escolheu o Júlio César, mas ninguém pode negar que ele é um grande goleiro. Mas acredito que não tem que justificar não, o Felipão é um grande técnico e como ele acertou na Copa das Confederações, a gente vai torcer para acertar de novo. Há uma cobrança muito grande por tudo que já aconteceu, pela Copa de 1950, por ser aqui no Brasil. Mas vamos ver o que vai rolar”, comenta Mylena.

Michelle não pensa tão diferente, “concordo com os nomes que ele chamou. O Felipão tem aquela coisa da Família Scolari, não é? Ele faz um trabalho psicológico muito grande. Nossa seleção é boa, forte. O Júlio César não é unanimidade entre os convocados, mas é um nome de confiança do técnico. Ele é um especialista nisso, temos de acreditar nele e torcer junto”.

Por fim, Paloma aponta um bom motivo e escala um jogador crucial que fica nas arquibancadas, mas ajuda indiscutivelmente o time. “Primeiro existe o fator casa, não é? Já vimos isso na Copa das Confederações, a torcida foi o décimo segundo jogador o tempo todo. Depois, confio no time. Gosto bastante do Vítor também, não confio muito no Jefferson, não acho que ele esteja em um bom momento. Penso que o Fábio (goleiro do Cruzeiro) deveria ter sido lembrado… O Bernard é outro que gosto muito. Ele tem a cara do futebol brasileiro, vai para cima e tem uma grande chance de fazer uma ótima Copa. Já o Lucas foi uma decepção, achei que ele estaria melhor, mas está na reserva na França, foi perdendo espaço com o Felipão e nas poucas vezes que entrou não soube aproveitar muito bem. Uma pena”, comenta.

VAI DAR BRASIL?

Apesar de as jornalistas aprovarem a escalação de Felipão, elas sabem que alguns adversários podem nos surpreender.

“Acredito que o Brasil vá vencer. Se o povo der aquele apoio bacana, a Copa é nossa. Também acho as equipes latinas bem perigosas. Mas se for fazer um ranking: Alemanha, Espanha e Argentina são as favoritas”, pontua Michelle.

Trabalhar com o Maurício (Torres) era maravilhoso. Tudo que foi dito e postado pelos amigos, pessoas que trabalhavam com ele, família… era verdade, ele era muito inteligente, dedicado, estudava para saber mais… Narrar era sua paixão, ele gostava de fazer entrevistas, apresentar, mas o que ele mais queria era crescer na narração

Foto: Jonathan HiginoMylena complementa a explicação da loira: “Podemos dizer que Brasil, Argentina e Espanha estão bem, mas a Alemanha é superior, talvez ela tenha o time mais técnico. Não podemos deixar de falar também da Itália, tetracampeã, com toda a tradição. Ainda precisamos respeitar a França e a Holanda que têm uma boa seleção.

A Inglaterra também já foi campeã em 1966, tem muita força e tradição no futebol. Há várias seleções que temos que respeitar e o importante é entrar em campo sabendo que do outro lado tem um time de respeito”.

E para finalizar a jornalista da Band lança a pergunta e completa com o comentário sobre um rival que poucos estão notando: “Eu queria ver uma final inesquecível entre Brasil e Argentina. Já pensou neste jogo, Messi contra Neymar?”

CARTÃO VERMELHO PARA A VIOLÊNCIA

Saindo dos gramados e analisando o que acontece ao redor, o País vem passando por inúmeros tipos de protestos idealizados por pessoas que não concordam com a vinda do Mundial e com os gastos ocasionados por ele. A dúvida é: tem que manifestar ou não?

“Estou muito dividida. Um lado meu ama muito a Copa do Mundo. Esperava demais por esse evento, acho muito gostoso torcer. Por outro lado, fico triste de ver o estado em que nosso país se encontra, as barbaridades, os roubos, essa questão dos gastos com as arenas. Nós vemos os estádios europeus, todos com padrão FIFA, custando menos do que as arenas daqui do Brasil. Por quê? Os aeroportos não foram ampliados, as vias públicas não foram melhoradas, não tem sinalização, a violência e a segurança pública estão cada vez piores, nós não temos água! É capaz de faltar energia em várias regiões do Brasil. Outra coisa, os estádios não têm internet de alta velocidade, o que prejudica muito o trabalho dos jornalistas. Acho que vão acontecer as manifestações, só espero que não sejam violentas”, diz Michelle.

Paloma recorda da Copa das Confederações: “Já vimos algumas situações dessas. Penso que é superjusto que aconteçam essas coisas, mas sem violência. Nosso colega da Band (o cinegrafista Santiago Andrade) morreu em um desses atos, muito triste. Acho digno que os brasileiros vão atrás de seus direitos. A Copa deveria sim acontecer aqui, mas com menos gastos. Acredito que alguns estádios poderiam ter sido reformados ao invés da criação de novas arenas”.

Myllena também se preocupa com a violência, mas é otimista e explica: “Nós que trabalhamos com esporte, escutamos o tempo todo das pessoas: ‘E aí, como é que vai ser agora durante a Copa? Não tem aeroporto, não tem internet no estádio’. Mas, sou uma pessoa muito otimista, nos Jogos Pan-Americanos em 2007 (Rio de Janeiro), vivi bastante essa situação de ir aos estádios pouco tempo antes de o evento começar, o entorno não estava pronto e no fim deu tudo certo. Nosso objetivo é fazer bonito não só no futebol, mas nos apresentarmos bem para o mundo. Porque, infelizmente a gente sabe que de repente vão ecoando pelos continentes os problemas de violência e de insegurança no Brasil. Acima de tudo, a segurança tem que estar muito boa para todo mundo andar nas ruas”.

O Ayrton Senna representava o Brasil que poderia dar certo através do talento, esforço, dedicação e garra!
O que ele fez nas pistas, foi apenas sua contribuição ao esporte. Fora delas, ele deu esperança e muita força para toda uma geração de brasileiros!

Foto: Jonathan Higino

A Copa das Copas

Deixando um pouco de lado esse clima que mistura a alegria de jogar em casa com a insegurança devido às manifestações, cada um de nós tem na memória um registro de qual Copa mais marcou a nossa história e entre as jornalistas isso não é diferente. “Acho que foi a de 1994, principalmente porque estávamos há 24 anos sem ganhar. Me lembro da emoção. Estava trabalhando no Rio. Então, antes de acabarem os jogos eu saía da casa dos amigos onde estava assistindo e voltava para a TV para trabalhar. Voltei justamente antes dos pênaltis e tive a alegria de ver o Baggio jogando a bola lá pra ‘China’. Mas não posso esquecer também da primeira Copa que cobri, a da França, que infelizmente não ganhamos, teve aquele final triste, mas o trabalho foi tão bom, a campanha foi tão boa, que não posso esquecer”, revive a apresentadora da Record.

A jornalista da Band concorda com Mylena, “com certeza a de 1994, o pênalti do Baggio foi inesquecível! Era bem pequena, mas me lembro como se fosse hoje, toda a família reunida, me marcou muito. Foi muito emocionante aquele jogo. Até hoje fico meio assim (nesta hora a jornalista escondeu o rosto com as mãos e ficou olhando entre os dedos) de ver uma disputa de pênaltis na TV. Foi demais!”, enaltece.

Para Michelle a Copa é outra, mas a emoção é parecida, “para mim foi a de 2002, quando aconteceu a superação do Ronaldo. Aquela coisa de ser brasileiro e não desistir nunca… Por mais coisas que tenham acontecido em sua vida, ele deu a volta por cima. Acho que é por isso que as pessoas gostam tanto dele. Também foi a primeira Copa em que trabalhei, marcou bastante”, justifica.

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