Entrevista exclusiva com José Wilker (Fevereiro/2010)

redacao 7 de abril de 2014 0

 

OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO É MUITO MAIS QUE QUALQUER COISA, UM “MEA CULPA” POR PARTE DA INDÚSTRIA AMERICANA PELO FATO DE QUE ELES INVADEM GRAVEMENTE AS CINEMATOGRAFIAS OU OS ESPAÇOS PELO MUNDO AFORA.

 

REVISTA EM DIA – Qual é a real importância do Oscar para a indústria cinematográfica? 
JOSÉ WILKER – Eu, particularmente, acho que esta insistência por parte de determinados segmentos com relação a uma candidatura e uma eventual vitória do Brasil no Oscar é uma tolice. Um grande prêmio que o Brasil pode, deve e precisa ganhar é o de adesão do público brasileiro ao cinema brasileiro. E é isso que não há, por parte do pessoal de cinema, em fazer um tipo de filme mais maduro, um pouco mais dirigido de fato para o espectador, porque houve uma época em que nós fizemos filmes para o nosso prazer pessoal de cineastas.

 

A LEI ANTIFUMO. ESSE NEGÓCIO É DE UMA GROSSERIA, DE UM PRIMARISMO, DE UMA BURRICE SEM TAMANHO. ENQUANTO VOCÊ NÃO REALIZA AÇÕES EFETIVAS, POR EXEMPLO, DE CONTROLE DO SISTEMA HABITACIONAL DA CIDADE, ENQUANTO VOCÊ RELEGA A SAÚDE PÚBLICA À SUCATA QUE SE RELEGOU, VOCÊ QUER CUIDAR DA SAÚDE PÚBLICA DESSA FORMA? ENQUANTO VOCÊ LIBERA A EMISSÃO DE GÁS CARBÔNICO PELOS AUTOMÓVEIS, VOCÊ TENTA COMPENSAR COM ESSE TIPO DE ATITUDE?

 

EM DIA – Central do Brasil, Quatrilho e Cidade de Deus, o que faltou para o Brasil ganhar?
WILKER – Eu não achei que qualquer filme desses pudesse ganhar um Oscar. Eu acho que o prêmio que esses filmes receberam foi o prêmio da indicação.

EM DIA – E o fato de um filme ser indicado e não ganhar. Existe alguma coisa política por trás disso ou não?
WILKER – Não. Na verdade a política do Oscar que orienta o eleitor é a da garantia de emprego. Os grandes filmes premiados são aqueles que proporcionaram o maior número de empregos. O eleitor do Oscar, em geral, é um eleitor de classe média, com nível e diplomação intelectual um pouco acima do razoável e muito especializado, com um conhecimento muito profundo do setor no qual trabalha. Não é exatamente um pensador de cinema, é muito mais um realizador, um operário da produção, que executou funções com extrema qualidade. Ele vota em determinado filme porque foi o que deu mais emprego.

EM DIA – E isso acontece também no caso dos filmes estrangeiros?
WILKER – Com os estrangeiros não, porque neste caso o pequeno número de eleitores que seleciona e de alguma maneira vota no filme estrangeiro aposta no quanto de qualidade e de novidade aquele filme pode trazer para a indústria, o quanto de revelador aquele filme é do país de origem, e assim por diante. Ele ganhou uma fortuna, lotou o Maracanã, mas isso não mudou rigorosamente nada. A minha sugestão é que em vez de se pensar pura e simplesmente no cinema e no Oscar, a gente pense que o grande prêmio a ser alcançado por nós deve ser a adesão desse público ao nosso produto audiovisual.

 

DURANTE MUITOS ANOS AS MÍDIAS SE RESSENTIAM COM O FATO DE FRANK SINATRA JAMAIS TER VINDO AO BRASIL. DE REPENTE, UM DIA, FRANK SINATRA VEIO. E O QUE MUDOU? NADA! 

 

EM DIA – Então se o Brasil ganhasse o Oscar, não mudaria nada?
WILKER – Certamente não.

EM DIA – Há como traçar um paralelo entre o cinema e a televisão brasileira?
WILKER – O caso da televisão do Brasil é peculiar. Ela surgiu como uma fortaleza porque criou alicerces e fundamentos durante a ditadura. Foi durante a ditadura que o chamado parque de comunicação no Brasil foi montado. As antenas de captação por satélite, a possibilidade de criação de rede nacional surgiu com o ministério das comunicações. Então a tevê cresceu nesse ambiente. O pessoal que produzia cultura no Brasil se colocava contra a ditadura e enganou-se. Porque de repente recusou a televisão como veículo importante de comunicação e ficou contra ela, separado dela. E era o pessoal de cultura, literatura, cinema, pintura. Criou-se uma relação de desprezo com o veículo. Ora, o veículo é fortíssimo, é uma presença cotidiana dentro de casa, é um amigo de solitários. A televisão mostrou para o Brasil o melhor e o pior do Brasil. Eu, quando fiz Bye Bye Brasil, achava que o Brasil ia se dividir em pelo menos quatro países. E hoje visitando o Acre, fazendo o Galvez (da minissérie Amazônia) descubro que o Brasil é um só. A gente não se deu conta de que o que a televisão produzia em termos de dramaturgia, teledramaturgia era muito melhor do que 90% do que se fazia em cinema, que alardeava uma qualidade absolutamente genial.

 

ESSE VEÍCULO CRESCEU E CRESCEU MAIS AINDA NA MEDIDA EM QUE AS PESSOAS CRIADORAS – QUE ERAM DE ESQUERDA – COMPREENDERAM A IMPORTÂNCIA DA TELEVISÃO E ADERIRAM A ELA.

 

EM DIA – Qual foi o motivo dessa miopia?
WILKER – A gente confundiu durante muito tempo ser sectário com ser radical. Ser radical é muito importante, você toma as coisas pela raiz, segundo a definição. Mas ser sectário é você fechar os olhos para possibilidades alternativas que o seu campo de bens e o seu campo visual deveriam incorporar. Eu não posso decretar, por exemplo, em nome da modernidade que o romance brasileiro do José de Alencar, do Manoel de Macedo e a poesia de Gonçalves Dias sejam uma m… Porque foi a partir deles que a gente pôde produzir Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Drummond, Bandeira e assim por diante.

EM DIA – E a música, nesse período?
WILKER – Eu acho que o exemplo mais evidente é a chamada ‘música de festival’. Tinha festival na (tevê) Tupi, Record, Globo, Excelsior. E os compositores criaram todo um movimento de músicas para festivais. E isso de um lado enriqueceu a nossa MPB, mas de outro a empobreceu, empobreceu na medida em que era monomotivada e que ficou muito igual. Ela ficou menos que música e mais que hino, porque era música para ser cantada em passeata.

EM DIA – Você acha que essas novas formas de tecnologia e comercialização de mídia podem afetar negativamente o cinema? As pessoas podem deixar de ir ao cinema?
WILKER – Olha, eu não consigo me imaginar há 40 anos atrás. Eu absorvo tudo o que a modernidade proporciona para a gente. Eu acumulo em cada iPod que tenho (são quatro) cerca de 16 mil músicas. Eu tenho uns 8 ou 9 mil filmes, mas não abro mão de ir ao cinema.

EM DIA – E você acha que o público final vai ter esse comportamento também?
WILKER – Eu acho que tanto as salas de cinema quanto as salas de teatro são dinossauros necessários. Hoje os canais de televisão exibem, pelo menos, três ou quatro filmes por dia de curta, média e longa-metragem. E as pessoas nunca viram tanto cinema quanto se vê hoje. Então quer dizer, os novos meios estão aí à disposição. Mas acho que é preciso construir mais salas no Brasil. São Paulo é um Estado que tem quase 600 municípios. Só há cinema em 100 e o resto não tem. Nós temos um percentual altíssimo de pessoas que jamais foram a uma sala de cinema. Existe uma coisa, com relação à sala que a diferencia e a torna necessária. Assim como são necessários, digamos, os templos religiosos. Você pode achar que pode rezar melhor quando você reza no recesso do seu lar. Mas há uma contrição melhor, que é aquela que você realiza coletivamente.

 

TEM UMA COISA ENGRAÇADA QUE QUERO FALAR SÓ PARA ILUSTRAR. SABE QUAL ERA O GRANDE RESPONSÁVEL PELA POLUIÇÃO DAS CIDADES NO COMEÇO DO SÉCULO 20? O COCÔ DO CAVALO. PORQUE TODO O TRANSPORTE DAS GRANDES CIDADES ERA FEITO POR TRAÇÃO ANIMAL. NA MEDIDA EM QUE A CIDADE CRESCEU E O TRÂNSITO AUMENTOU, O COCÔ FICOU EM PROPORÇÕES TAIS QUE APODRECIA NA RUA, EMPESTEAVA A CIDADE E DECRETOU-SE QUE A CIDADE IA ACABAR. O QUE SALVOU A CIDADE? O ADVENTO DO BONDE ELÉTRICO E DO AUTOMÓVEL. NUM PRIMEIRO MOMENTO, ENTÃO, LIMPOU-SE A M.. DA CIDADE E O AUTOMÓVEL PASSOU A SER A SALVAÇÃO. HOJE O QUE ACONTECE? O AUTOMÓVEL POLUI MAIS DO QUE A M… (RISOS). NÃO “TÔ” INVENTANDO, ISSO É UM FATO HISTÓRICO.

 

EM DIA – Ainda falando do Oscar, você assiste a todos os filmes e depois faz algum debate, assiste com amigos, como é?
WILKER – Eu assisto, vejo pelo menos um filme por dia e, claro, a gente conversa. Eu tenho uma prática, aqui em casa de vez em quando, uma vez por mês ou uma vez a cada dois meses, separar uma semana pra gente ver cinema. Então juntamos uns 10 amigos e como no meu círculo de amizades a maioria do pessoal é de cinema, a gente acaba trocando ideias. Agora no caso do Oscar, por exemplo, eu vi quase todos os filmes que eu creio que sejam indicados. Acho até que o Oscar deste ano é bastante previsível. Mas basicamente vejo os filme mais de uma vez, eu gosto de ver filmes duas vezes até porque acontecem coisas engraçadas. Eu vi o Titanic uma vez, vi a Kate Winslet, ela é uma atriz extraordinária. Aí eu fui ver uma segunda vez o Titanic: não gostei, achei muito chato. Titanic é o filme que não resiste a uma segunda olhada em minha opinião particular. Já outros filmes a cada vez que você vê, eles são melhores. Você vê filmes, como por exemplo Os Brutos também amam e é uma coisa engraçada, porque o único bruto do filme não ama. O único bruto é o Jack Palance, que não ama. Aí você vê uma vez e fala “pô, que loucura”. Depois da quinta vez você percebe que é um filme gay. Se ele demorasse mais cinco minutos o Van Heflin casava com o Alan Ladd.

 

PORQUE FILMES, NA MINHA CABEÇA, SÃO FEITO GENTE: NASCEM, CRESCEM, FICAM ADULTOS, ENVELHECEM E MORREM. ÀS VEZES, VIRAM LENDA. 

 

EM DIA – E hoje, o que você vê na tevê?
WILKER – O controle remoto é a melhor invenção com relação à televisão. Eu vejo sobretudo futebol, aliás, eu só vejo futebol. Pode ser qualquer jogo, eu assisto campeonato da Guiana Francesa, Suriname. Quando apareceu o VHS eu descobri que tinha na minha casa um canal de televisão que podia programar.

 

HÁ UMA BRIGA COM O PLURAL NESSE PAÍS QUE, COITADO, DEVE ESTAR ABSOLUTAMENTE MORIBUNDO. AS PESSOAS TÊM UMA NÃO SEI SE É RAIVA OU SE É INCAPACIDADE MESMO DE LIDAR COM ELE. O PLURAL PERDE FEIO E A LÍNGUA PORTUGUESA É SURRADA DIARIAMENTE PELAS MÍDIAS, SOBRETUDO AS MÍDIAS FALADAS.

 

EM DIA – Na televisão você não faz trabalhos frequentes por problema de tempo ou há outro motivo?
WILKER – Eu até faço, mas eu me dou intervalos porque preciso até me reciclar. Mas eu fui fazer contas, cara, e estou na televisão desde 1970 ou 1971. São 40 anos, em 40 anos eu fiz mais de 40 novelas. Eu quero parar pelo menos um ano ou mais pra não torrar a paciência das pessoas (risos). Até porque às vezes fico pensando “preciso buscar mais material em mim pra trabalhar determinadas personagens”. O cara que é ator tem que se emprestar a personagens e ir se ajustando a elas, na medida do possível mantendo a elas, é claro, o seu estilo. E por miopia intelectual, sem dúvida alguma, as pessoas não conseguem compreender isso. Aliás, falando em crítica, tem uma coisa que me incomoda muito: eu acho a crítica essencial. E a televisão às vezes se ressente de um crítico, porque o crítico de televisão foi substituído pelo palpiteiro, pelo cara que é desaforado, pelo cara que é mal-educado, pelo cara que faz malcriação em frente a um programa em nome de fazer uma avaliação do programa que vê.

 

ALIÁS, AS PESSOAS AQUI CONFUNDEM ESTILO COM REPETIR-SE. E SE EXISTE UMA COISA QUE ACHO QUE É UMA GRANDE CONQUISTA POR PARTE DE UM ATOR É O SEU ESTILO DE FAZER AS COISAS. 

 

EM DIA – Você declarou certa vez que não gosta das relações superficiais. Com todos esses 40 anos de tevê, você construiu muitas amizades?
WILKER – Ah sim, eu tenho sólidas amizades com o pessoal de televisão. Eu vou lhe contar uma coisa: as pessoas às vezes pensam que amizade é sinônimo de você estar constantemente ao lado. Por exemplo, eu sou amigo-irmão do Jô (Soares), do Lima Duarte, do Tony Ramos, da Vera Holtz, da Cássia Kiss, da Regina (Duarte), do Tarcísio, do Dênis Carvalho, do Otávio Muller, do Falabella, que é meu compadre, e um número notável de pessoas com as quais eu convivo mais ou menos. Mas que são pessoas com as quais eu sei que posso contar, uma coisa com mais raiz do que como o típico carioca que diz, passa lá, te convida, não passa endereço, nem hora e aí se você vai ele fica surpreso e fala ‘cara, o que você tá fazendo aqui’?

 

EU ACHO QUE A MELHOR AMIZADE QUE VOCÊ DEVE TER É AQUELA DE UMA PESSOA DA QUAL VOCÊ ESTEVE SEPARADO POR DEZ ANOS E AO REENCONTRÁ-LA É COMO SE A CONVERSA TIVESSE TERMINADO ONTEM. 

 

EM DIA – E qual o seu gosto para música?
WILKER – Olha, você tem de ouvir The Doors, mas eu confesso que fiquei um pouco defasado, porque essa música moderna brasileira eu abomino: o axé, o funk, mulher que requebra em cima da garrafa, essa coisa neo-sertaneja romântica, acho chato demais. Mas eu sou assim: ouço clássicos como Vivald, Mozart, Wagner, Bartochi, Stravinski, umas coisas de Jazz como Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, ou a MPB, que eu adoro, assim como gosto também de Caetano e dos caras antigos como Noel Rosa, cantoras como Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, etc.. Gosto de Queen, Frank Willians, John McLaughlin, Miles Davis, Leonard Cohen – que acho genial -, João Gilberto, Tom Jobim, Frank Sinatra – adoro Frank Sinatra -, Janis Joplin, Bob Marley, Bob Dylan (ele mostra os Cds que estão em várias partes da sala).

EM DIA – E como é a sua relação com o pessoal na rua, com fãs, é tranquila?
WILKER – Olha, faço isso tranquilamente. Se eu depois de todo esse tempo e todo esse esforço andasse na rua impunemente aí eu ficaria preocupado. O que não gosto são os paparazzi. Porque esses caras agem como se eles fossem criminosos, o que é tolo. Porque se eu estou na rua e um cara quer me fotografar, eu não tenho absolutamente nada contra. Mas o que me incomoda é que eles se escondem atrás de uma árvore tentando fazer uma foto que depõe contra você. Então isso é uma atitude criminosa.

EM DIA – Para que time você torce?
WILKER – Flamengo.

EM DIA – E na Copa do Mundo, você acha que o Brasil tem chance?
WILKER – A gente nunca sabe. O grande candidato a campeão este ano é a Espanha. Mas a Espanha tem um problema, ela sempre é uma grande candidata. Eu não sei até que ponto eles vão segurar até lá. Tem a França, que é sempre uma incógnita, começa mal e vai até o final, e espero que o Brasil não tenha de encarar a França. O Brasil tem uma característica: joga bem com qualquer time, mas a partir do momento que pega a França ele perdeu a partida. No Brasil, até a copa de 70 os jogadores jogavam para o Brasil. Hoje eu não acredito que se o Brasil perder o jogo, um jogador perca sua noite de sono. A Argentina, mesmo que tenha Tevez ganhando 10 milhões por mês, o Messi ganhando 100 milhões no mês, os argentinos jogam, eles vestem a camisa. A minha impressão de fora do time e como torcedor é que o Brasil não veste a camisa.

EM DIA – Você pode nos recomendar um lugar onde gosta de comer no Rio e em São Paulo?
WILKER – Olha, no Rio um lugar bom para jantar é o Antiquarius e em São Paulo eu gosto de ir ao Rodeio, aí depois que eu vou ao Rodeio eu falo “tô em São Paulo”.

EM DIA – O que você achou do filme sobre a vida do Lula?
WILKER – Eu gostei, achei um filme bem feito tecnicamente. Tem um desempenho da Glória Pires extraordinário.

EM DIA – Indique um filme brasileiro?
WILKER – Deus e o Diabo na Terra do Sol.

EM DIA – E internacional?
WILKER – Vou dizer o primeiro que me vem à cabeça: The Godfather, sobre tudo o segundo (O Poderoso Chefão 2).

 

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Fotos: João Mário Nunes

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