Fobias e transtornos de ansiedade prejudicam a vida moderna

redacao 12 de agosto de 2013 0

Foto: Divulgação

Além do sucesso em Hollywood, Jennifer Aniston, Nicole Kidman e Keanu Reeves têm algo em comum: fobias. Apesar de fazerem parte do seleto grupo de atores com cachês milionários, eles integram uma parte da população que perde muitos bons momentos da vida por acreditar que algo de ruim pode acontecer, fazendo conexões imaginárias, evitando lugares e situações. Consagrado no filme “Matrix”, Keanu enfrenta qualquer desafio desde que não tenha que entrar numa sala sem luz para gravar, ele tem medo do escuro. Já Jennifer tem medo de voar de avião, enquanto Nicole afirma que pode gravar uma cena coberta de baratas, mas entra em pânico se uma borboleta se aproxima. “Só de imaginar o corpo delas me dá calafrios”, declarou a atriz em recente entrevista.

Os especialistas afirmam que o medo é uma reação de alerta, pois o cérebro reage ao perigo liberando substâncias químicas que preparam o indivíduo para se defender ou fugir diante de determinada situação.

O corpo apresenta reações normais como respiração e batimentos cardíacos acelerados, sudorese, tensão muscular e tremores. Mas quando esta reação de alerta é desencadeada de forma automática em situações em que não existe perigo, é hora de se preocupar.

As fobias podem se apresentar de diversas formas, sendo que uma modalidade em especial tem chamado cada vez mais atenção dos especialistas, trata-se da fobia social. Também conhecida como Transtorno de Ansiedade Social, atinge em torno de 6 a 8% da população em geral, além de uma timidez considerada patológica, a pessoa apresenta baixa autoestima.

Outra característica típica é o medo do julgamento do outro. “O portador da fobia social teme que suas ações possam ser consideradas erradas ou ridículas”, afirma o médico psiquiatra Dr. Luiz Vicente Figueira de Melo, supervisor do programa de ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQHCUSP) .

Foto: DivulgaçãoPara quem sofre deste mal, situações como uma entrevista de emprego, reuniões, festas, falar em público e até mesmo conversar com autoridades ou pessoas estranhas gera muita apreensão. “A sensação de desconforto é acompanhada de sintomas físicos, como a falta de ar, palpitações, rubor, tremor e a vontade de fugir do ambiente naquele momento”, esclarece. É importante distinguir uma timidez natural – aquela que muitas vezes nos acompanha desde a adolescência – da patológica. A primeira geralmente desaparece com o amadurecimento da personalidade e a entrada para a vida adulta. Algumas pessoas convivem bem com a timidez pelo resto da vida, mas isso não as impede de realizar tarefas profissionais ou ter vida social ativa. Na patológica, o medo de ser julgado e o constrangimento excessivo comprometem suas atividades profissionais e muitas vezes levam ao isolamento.

As causas da fobia social ainda não estão totalmente elucidadas, mas acredita-se que a pré-disposição genética, o desenvolvimento da personalidade e vivências conturbadas podem estar entre os fatores. Quanto ao tratamento, o Dr. Luiz explica que dependendo da intensidade dos sintomas, são recomendados antidepressivos e/ou a Psicoterapia Cognitiva Comportamental. “A agorafobia é um transtorno de ansiedade que se caracteriza pelo medo de passar mal e não ser socorrido a tempo em locais abertos e populosos, como cinemas, teatros, estádios ou shopping centers. Em 90% dos casos está associada ao transtorno do pânico”, esclarece o psiquiatra.

Este transtorno pode desencadear ataques de pânico com os sintomas físicos, falta de ar, palpitações e tremores. “Na maioria dos casos as pessoas acometidas fogem ou evitam estes locais deixando de fazer atividades da vida cotidiana”, afirma o Dr. Luiz.

O tratamento mais apropriado também é a Psicoterapia Cognitiva Comportamental, que consiste em expor, com ajuda de terapeutas, os portadores da agorafobia às situações temidas e entender o processo.

PÂNICO OU INFARTO?

A cena é recorrente nos atendimentos de emergência da Cidade. O paciente chega com dor no peito, falta de ar e a sensação de que vai morrer. O interessante é que em grande parte dos casos, o diagnóstico não é infarto, mas sim uma crise de pânico, situação cada vez mais comum nos dias de hoje.

“A pessoa fica lívida, com batimentos cardíacos acelerados e aumento da pressão arterial”, esclarece a médica psiquiatra Dra. Vera Viveiros Sá, coordenadora do Ambulatório de Transtorno Obsessivo Compulsivo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo a médica, uma crise de pânico dura de 10 a 30 minutos, “mas para o portador, parece uma eternidade, e o pior, acontece quando a pessoa menos espera, sem nenhum disparador externo”, declara a especialista. Quanto às maiores vítimas deste mal, a ocorrência é muito mais frequente em mulheres do que em homens, na faixa etária dos 20 aos 30 anos de idade.

“Ainda não sabemos porque a ocorrência é maior em mulheres, mas observamos algumas características comuns, geralmente são pessoas rígidas consigo mesmas, perfeccionistas e excelentes profissionais.”

Uma das consequências para quem sofre com a doença é a alteração da rotina da sua vida pessoal e até profissional. “O transtorno do pânico compromete muito a funcionalidade da vida do cidadão, ele começa a evitar certas situações, como sair de casa ou dirigir, pois faz conexões aliando a crise a alguma atividade que estava fazendo naquele momento.”

A Dra. Vera Sá ressalta a importância do diagnóstico de um especialista: “Geralmente o transtorno do pânico é tratado com inibidores seletivos de serotonina, mas só a avaliação de um psiquiatra é que vai indicar a melhor forma de tratamento do paciente”.

Fotos: Divulgação

O FAMOSO TOC

“O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) caracteriza-se por pensamentos ou atos persistentes que não são voluntários, como rituais de limpeza e preocupações consideradas não pertinentes pelos indivíduos acometidos por esse transtorno”, explica o Dr. Luiz Vicente de Melo. “Lavar as mãos ou tomar banho várias vezes ao dia, fechar portas, trancá-las repetidas vezes ou então checar os botões do fogão excessivamente são rituais comuns das pessoas que sofrem com este transtorno.”

Os pensamentos também são repetitivos e não saem da consciência mesmo com algum esforço. “O tratamento vai depender da gravidade do caso e muda de indivíduo para indivíduo”, segundo o psiquiatra a recomendação geralmente inclui antidepressivos associados à Psicoterapia Cognitiva Comportamental.

A VIDA APÓS UM TRAUMA

“O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) surge após a experiência de um evento com grande risco de morte e que geralmente envolve situações de violência, podendo também ocorrer com a testemunha do mesmo evento”, esclarece o médico psiquiatra Dr. José Paulo Fiks, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Entre os sintomas está a conduta de evitação, que leva ao isolamento social. “A pessoa passa a não sair de casa, procura não passar mais pelo local do ocorrido, ou seja, evita tudo o que possa lembrar o evento traumático”, explica. Segundo o psiquiatra, a revivência é um outro sintoma também bem latente nas vítimas deste transtorno: “Lembranças intrusivas do evento, pesadelos com o ocorrido e ‘flashbacks’ são pensamentos recorrentes que atualizam a vivência do trauma”.

Foto: DivulgaçãoPara completar a lista, há a hiperexcitação psíquica e motora, os sustos – que ocorrem mesmo sem motivo e geralmente estão acompanhados de tonturas, palpitações, cefaleia e irritabilidade. Atualmente foram incluídos novos sintomas: a apatia, lentidão motora, falta de vontade para tarefas mais simples, ausência de projeção para o futuro. “Ou seja, o TEPT, além de um quadro basicamente de ansiedade, passa a ter elementos de depressão pelo novo código de doenças mentais DSM-5, lançado em maio nos Estados Unidos”, explica o Dr. Paulo Fiks.

De acordo com pesquisas, o TEPT só ocorre em 15% das pessoas que passaram pela experiência traumática. Os outros 85% podem se recuperar bem da vivência. Ele pode ser evitado com a intervenção imediata após um evento traumático ou aos primeiros sintomas. O psiquiatra ressalta que o atendimento psicossocial é tão importante quanto o psiquiátrico, pois a melhor intervenção é a multidisciplinar: “Geralmente a psicoterapia é tão eficaz quanto a medicação e esses dois tipos de tratamento dão melhores resultados seja na prevenção, seja no tratamento do TEPT.”

Os transtornos de ansiedade e as fobias estão cada vez mais presentes na sociedade do nosso século. Um estudo do National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos, revelou que 40% dos americanos a partir dos 18 anos apresentam transtornos de ansiedade. Já pesquisas da Organização Mundial da Saúde apontam que 2 a 4% da população do mundo sofrem com o transtorno do pânico.

Resta saber como vamos lidar com as demandas da modernidade, além do estresse, trânsito, excesso de trabalho e medo da violência, sem deixar que estes fatores nos impeçam de viver a vida com toda a plenitude a que temos direito.

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