Muito além de uma “briga entre irmãos”

redacao 19 de março de 2018 0

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PESQUISA NORTE-AMERICANA ALERTA PARA O BULLYING ENTRE IRMÃOS, QUE MERECE TANTA OU MAIS ATENÇÃO DOS PAIS E DA SOCIEDADE DO QUE O PRATICADO POR TERCEIROS.

Estudo publicado em julho no Pediatrics, jornal oficial da Academia Americana de Pediatria, chama a atenção para o bullying cometido entre irmãos, o qual nem sempre é reconhecido socialmente, como o realizado por colegas de escola. Para agravar a situação, a pesquisa revela que agressões praticadas por irmãos causam maior sofrimento se comparadas às praticadas por terceiros. “Isso pode acontecer por vir de dentro do núcleo de confiança da criança. A família é onde ela busca suas referências, seu vínculo. Se nesse espaço acontecem os problemas, a estrutura dessa criança fica instável, gerando insegurança”, justifica o pediatra Moises Chencinski, graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em pediatria pela Associação Médica Brasileira (AMB).

As desavenças entre irmãos são conside­radas “normais” ou “aceitáveis” dentro de algumas características, como explica a psicóloga clínica Elizabeth Brandão, especialista em terapia infantil e professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“As brigas entre irmãos são naturais quando há uma troca de papéis entre eles, ou seja, nunca é o mesmo que se encontra em posição de ‘superioridade’ sobre o outro no momento das discussões, sendo que elas ocorrem eventualmente. Já quando não há essa troca e as brigas são tão constantes, que superam os momentos de cumplicidade e de amizade também esperados nas relações entre irmãos, elas não estão mais dentro de um nível considerado saudável”, explica a profissional.

O QUE PODE GERAR O BULLYING ENTRE IRMÃOS?

Elizabeth e Chencinski defendem um ponto em comum: fazer comparações entre os irmãos e instigá-los a competirem entre si pode ser princípio para uma prática de bullying. “Apesar do amor, a ‘luta’ pelo espaço e pela atenção dos pais, cuidadores e de outros adultos se estabelece de várias formas e em várias intensidades. Ciúme, sensação de perda de espaço e compa­rações podem levar a essa consequência”, afirma o pediatra.

Além disso, “pais que demonstram admiração pelos filhos mais agressivos reforçam tal comportamento nestes”, complementa a psicóloga.

Segundo Elizabeth, o bullying também pode ser “aprendido” na escola – a criança desconta no irmão a agressão recebida de um colega – ou a partir do comportamento dos pais. “Quando desdenham seus amigos ou parentes, os adultos estão dando uma ‘autorização’ inconsciente para os filhos agirem da mesma forma”, ressalta.

SINTOMAS E CONSEQUÊNCIAS

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A criança que sofre bullying tende a reprimir a sua agressividade. Muitas vezes ela carrega uma culpa inconsciente por sentir raiva, ódio, mágoa e outros sentimentos. E por não saber expressá-los ou ter medo de uma represália, omite o problema dos adultos. Como consequência, “ela fica frequentemente amuada, ressentida e ‘emburrada’ porque não vê uma saída criativa para escapar daquela situação”, ilustra Elizabeth.

Por isso, “os pais devem estar atentos, especialmente, a mudanças de comporta­mento das crianças e adolescentes”, orienta Chencinski.

Mas este sentimento reprimido pode ter consequências psicológicas e até mesmo físicas. Ele “diminui a autoestima e a alegria de viver, gera insegurança, prejudica o desenvolvimento da criança e pode levá-la, inclusive, à depressão”, alerta a especialista.

“Em alguns casos, as crianças chegam a desenvolver doenças psicossomáticas”, lembra o pediatra. Inflamações de repetição, como rinite, sinusite, amidalite e gastrite, úlcera e enxaqueca estão entre as mais comuns citadas pelos profissionais.

A AGRESSIVIDADE REPRIMIDA DIMINUI A AUTOESTIMA E A ALEGRIA DE VIVER, GERA INSEGURANÇA, PREJUDICA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E PODE LEVÁ-LA, INCLUSIVE, À DEPRESSÃO.

COMO LIDAR COM O PROBLEMA

A psicóloga e o pediatra são unânimes ao dizer que é preciso haver diálogo com os filhos e que os adultos precisam ser exemplo. “Os pais e educadores têm que estar muito atentos ao transmitir com seu comporta­mento e palavras a ideia de que somos todos diferentes e iguais ao mesmo tempo. É essencial que respeito quanto às diferenças e solidariedade quanto às supostas inferioridades sejam transmitidos desde sempre, e os pais têm que elaborar estes aspectos em si mesmos, em relação às pessoas em geral e aos filhos, em especial”, salienta Elizabeth.

Ela também aconselha a família a buscar ajuda profissional, que pode ser desde uma orientação até um acompanhamento, inclusive para o irmão que estiver praticando o bullying, dependendo do caso.

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NÃO IGNORE!

No artigo “Bullying entre irmãos não deve ser ignorado”, da autora Márcia Wirth, assessora de Chencinski, lista algumas medidas descritas pelo pediatra para auxiliar os pais a lidarem com a questão:

  • Sempre converse com seus filhos, desde cedo, a respeito do assunto. A orientação sobre o bullying, sofrido ou executado, deve fazer parte da educação tanto em casa quanto na escola;
  • Tenha certeza que seu filho compreenda bem que o bullying nunca é aceitável;
  • Seja um modelo positivo. Todas as crianças devem aprender a tratar os outros com respeito;
  • Quando o seu filho precisa de disciplina, explique por que o comportamento foi errado e como ele pode mudar isso;
  • Dê exemplos reais dos bons e maus resultados das ações de seu filho;
  • Desenvolva soluções práticas com o apoio de outros. Envolva o diretor da escola, os professores, a babá, a empregada e os outros parentes em maneiras positivas para parar o bullying.

 

Dr. Moises Chencinski (CRM-SP 36.349)
www.drmoises.com.br

Elizabeth Brandão (CRP – 7.194)
salaprofpsico@pucsp.br

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