Negra Li em seu melhor momento

redacao 22 de abril de 2013 1

Foto: Jonathan HiginoCantando hinos evangélicos durante sua infância na Vila Brasilândia, periferia da zona Norte da Capital, ela descobriu timidamente seu gosto pela música, que foi aprimorado enquanto imitava divas como Whitney Houston em shows na escola. Como se já sentisse que seu destino estava ligado ao mundo artístico, Liliane de Carvalho, mais conhecida como Negra Li, pediu aos 15 anos de idade para que a mãe a matriculasse em um curso de Teatro, Cinema e Televisão. Mas sua grande chance, e um tanto inusitada para uma garota, surgiu um ano depois, ao ser convidada para cantar no grupo de Rap RZO, que até então era formado somente por rapazes.

Com jeito de moleca, se escondendo atrás de calças largas e se expressando por meio de gírias, aos poucos foi conquistando o seu espaço. No ano 2000 ingressou como solista no coral da USP e em 2005, lançou o disco “Guerreiro e Guerreira” ao lado do rapper Helião. Já no ano seguinte, optou pela carreira solo lançando o CD “Negra Livre”.

Ao longo dos 16 anos de trajetória, Negra Li cantou ao lado de artistas como Caetano Veloso, Nando Reis, NX Zero, Skank, Martinho da Vila, Pitty e Akon. Mas houve uma parceria que realmente marcou a sua vida: o dueto com o cantor Chorão, da banda Charlie Brown Jr. na música “Não é sério”. O hit lhe rendeu inúmeras aparições e oportunidades, além do apelido de Diva, que ela aceita com muito carinho.

E seu talento não para por aí. Em 2006 estreou como atriz no filme “Antônia”, que em 2007 viraria um seriado homônimo na TV Globo, também protagonizado por ela. Três anos mais tarde voltou às telonas com o longa “400 contra 1: A História do Comando Vermelho” e, no ano passado, fez sua primeira interpretação no teatro como a Rainha Branca no musical “Chapeleiro Maluco”.

Hoje com 33 anos, casada e mãe de Sofia, 3, Li mudou de estilo e lançou o CD “Tudo de Novo” se apresentando como cantora de Música Popular Brasileira. O álbum possui produção do aclamado Rick Bonadio, a quem a cantora procurou pessoalmente para fazer o trabalho que, de acordo com ela, deu supercerto.

Com a vida completamente agitada se dividindo entre os palcos e os deveres da maternidade, Negra Li recebeu a equipe da revista Em Dia, com muita simpatia e disponibilidade, no estúdio Anacã, espaço onde faz aulas de Balé, Jazz e Teatro Musical, buscando aperfeiçoar sua performance nos shows. Confira a entrevista!

Em Dia – Você ficou seis anos sem lançar um CD. O que fez durante o hiato?
Negra Li – Não parei, viajei muito, fiz show na Alemanha, Japão, Austrália e Nova Zelândia. Também gravei no México um clipe com o rapper senegalês Akon. Tudo isso me deu bagagem para colocar no meu disco.

ED – Por que decidiu transitar do Rap para a MPB, Soul Music e R&B (Rhythm and Blues)?
NL – Na verdade acho que a transição não é de agora.
A grande novidade ocorreu em 2004 quando fui para uma gravadora grande, mesmo continuando no Rap.
E depois em 2006 porque o meu CD “Negra Livre” já estava mais pop. Sou muito eclética, casei, me tornei mãe… Meu gosto musical naturalmente foi mudando.

ED – Como foi fazer o CD?
NL – Tive muita liberdade para criar. O fio condutor dele é a Soul Music, mas você também encontra uma música mais pop, outra mais Jazz, além de um R&B misturado com reggae.

ED – Por que escolheu Rick Bonadio para produzir o CD?
NL – Eu o achava muito influente e que trabalhar com ele representaria uma divisão na minha carreira. Falei: ‘Nossa, se eu pegar o pop dele e misturar com o meu R&B e o Black Music que já tenho vai dar uma coisa legal’. E acertei, porque o CD ficou de muito bom gosto. Se você for a uma loja, ele estará na prateleira como MPB, pois acabou ficando um pouco sofisticado.

ED – Você já cantou com muitos artistas reno­mados na sua carreira, qual lhe marcou mais e por quê?
NL – Acredito que a participação mais impor­tante fora o RZO foi com o Charlie Brown Jr., que me deu visibilidade na mídia.

ED – Como surgiu essa opor­tunidade?
NL – O Chorão gostava de Rap, foi a um show do RZO e nos chamou para participar de um CD dele. O grupo acabou fazendo uma canção que começou a ter muitas vozes e já não me cabia mais, foi assim que ele me chamou para outra música. Me deu uma fita com um rap para eu escrever a minha parte, mas não consegui desenvolver nada e continuei ouvindo. Após essa canção tinha “Não é sério” e no finalzinho havia um espaço. Criei uma parte porque me apaixonei pela música. O Chorão nem sabia que essa canção estava na fita mas decidiu ouvir porque já estava pronta, fechada e mixada. Ele gostou e abriu a música novamente para colocar a minha voz.

ED – Já que falamos do Chorão, vamos tocar em um assunto mais triste e recente, que foi a morte dele. Como você recebeu e lidou com a notícia?
NL – Fazia anos que não nos falávamos, foi um choque. No mesmo dia concedi muitas entrevistas. Me pegaram em um momento muito fragilizado que me fez refletir: ele me deu a primeira oportunidade de ser reconhecida na mídia, me chamou de Diva no DVD e a partir daí o apelido ficou, começaram a me chamar de Diva do Rap, Diva da Black Music. Além dessa chance, me deu muitos conselhos no início da carreira. E também me contou como funcionava o meio artístico, com o que eu tinha que tomar cuidado. Realmente foi a pessoa que me apadrinhou. Eu queria ter retribuído mais o que ele fez por mim. Têm coisas que não conseguimos explicar, a vontade de Deus e do destino de cada um, temos apenas que aceitar.

ED – Quem são seus ídolos e quais foram suas influências musicais?
NL – Minhas influências foram o R&B e a música black americana. Aos doze anos eu ouvia Mariah Carey, Whitney Houston, Patrícia Marx e Sandra de Sá. Além de Legião Urbana, Gabriel O Pensador e Planet Hemp, sempre gostei de tudo. Mas as grandes divas que me influenciaram foram a Lauryn Hill, Jill Scott e Erykah Badue.

Foto: Jonathan Higino

ED – Falando sobre “Antônia”, o filme foi gravado na Brasilândia, local onde você nasceu e cresceu. A história era sobre um grupo de meninas que cantavam rap e você já interpretava esse gênero. Com tantas coincidências, o que o filme e o seriado significaram na sua carreira?
NL – A Tata Amaral, que é a diretora, fez uma grande pesquisa procurando cantoras para atuar. Foi isso que fez parecer um documentário porque eram meninas que viveram de alguma forma aquela realidade… Ela me entrevistou e após dois meses de testes saiu o resultado. Foi muito importante e pude representar não só o rap, mas a mulher negra e a periferia. Ainda encontro muitas pessoas que perguntam: ‘Cadê a “Antônia”?’. Hoje percebo que estou ficando velha (risos), têm meninas de 18 anos que chegam para mim e falam: ‘Nossa, quando eu tinha 9 anos curtia muito “Antônia”’. A minha filha gosta do filme e acredito que até hoje ele seja representativo para as mulheres negras que não se viam na tela e não tinham ninguém que as representasse. Elas podiam falar: ‘Poxa, ela tem o cabelo crespo como o meu’. Também foi importante para a periferia, principalmente a de São Paulo, porque geralmente na TV Globo passa muito a realidade do Rio de Janeiro. Ainda carrego os frutos e canto a música “Flow” com um DJ nos meus shows.

ED – Mudando de assunto, como você se divide para cuidar da sua filha e ainda dar conta da sua vida profissional?
NL – Às vezes fico louca (risos). Mas penso que estou dando o melhor de mim, sou como qualquer pessoa. A fama não sobe à minha cabeça, ser mãe e ter uma atividade normal dentro de casa me faz sempre manter os pés no chão e ser mais serena com relação à vida. Lavo, passo, cozinho e tenho que trabalhar, cuidar da minha filha, ficar bonita, porém às vezes não tenho tempo de ir à manicure, para mim o que importa é fazer o meu trabalho de coração e ainda dar conta do lado pessoal. As pessoas mais importantes da minha vida estão em casa. Para eles não posso ser a Negra Li, tenho que ser a Liliane.

ED – E como é a relação com a sua mãe? Ela participa da educação da Sofia?
NL – Minha mãe me ajuda muito desde que minha filha nasceu. Ela fez Pedagogia, tem 62 anos, e ainda dá aula em creches. É engraçado o jeito que lida com a neta, tudo o que faz com os alunos também faz com ela. Com a correria nos vemos pouco. Ela vai muito à minha casa. Minha sogra também me ajuda muito, quando me casei ganhei uma mãe. Ela cuidou bem mais da minha filha porque minha mãe trabalha fora e ela não trabalhava. Já falei para elas que quero ter outro filho e elas ficam competindo (risos) para saber quem irá cuidar do nenê. É Dia das Mães, mas meu sogro também merece ser lembrado, ele me ajuda demais com a Sofia. Tem dias que ele fica com ela, dá comida e faz tudo.

ED – Você ainda frequenta a Zona Norte? O que mais gosta na região?
NL – Sim. Minha família ainda mora na Brasilândia e a do meu marido, na Vila Guilherme. Também costumo passear por lá. Amo o Mocotó que fica na Vila Medeiros e gosto de levar minha filha ao parque Trote para brincar.

ED – No ano passado você estreou no teatro, interpretando a Rainha Branca no musical “Chapeleiro Maluco”. Como foi a experiência?
NL – Bem legal, gosto muito de atuar e nunca tinha feito teatro. No musical além de interpretar podia dançar e cantar… o que me fez sentir completa como artista. Adorei fazer a Rainha Branca, ela era “zen”, mas ao mesmo tempo tinha uns trejeitos de “negona do Brooklyn” (risos).

ED – Um outro lado seu é a religiosidade. Você é evangélica desde criança e cresceu em um lugar mais humilde. O que a igreja representa na sua vida?
NL – A família é a base de tudo e o fato de eu ser evangélica me ajuda a ter cabeça para enfrentar o mundo artístico. É muito difícil, você está no meio de multidões e pode se sentir sozinho, isso faz com que muitos artistas caiam na depressão e usem drogas. Um caso recente é o do Chorão, que morreu sozinho dentro de um apartamento. Temos que tomar muito cuidado. Acredito em Deus e quando oro qualquer sensação ruim que tenho passa. Quando vou para a igreja, volto com a alma lavada.

ED – Agora voltando ao tempo do RZO, como você se comportava em um grupo que era dominado por homens?
NL – Foi difícil. Até então não entendia que sofria com o machismo, era muito ingênua. Usava calça larga, não podia mostrar o corpo, não podia sorrir, porque sorrir era dar “risadinha”. Cumprimento não podia ser com beijo, se não era questão de demonstrar que estava a fim do outro. Era muito retraída. Convivendo com homens, copiava o jeito de falar. Só dizia: ‘Pode crê e da hora’. E foi assim que o Caetano Veloso me conheceu (risos). Ele estava gravando com a Elza Soares no mesmo estúdio que eu e o RZO. Fui até a sala em que eles estavam e quando terminou a música, ele me perguntou: ‘E aí, gostou?’ e falei: ‘Da hora’. Foi a única coisa que consegui dizer para ele (risos). Mas ainda bem que nós conseguimos nos reencontrar para gravar a música “Meus telefonemas”, para o meu CD “Negra Livre”.

ED – E na sua infância você estudou em um colégio particular, sofreu algum tipo de preconceito?
NL – Estudei como bolsista em uma escola particular no Parque da Água Branca até a 7ª série. Hoje posso colher os frutos dessa educação na questão de raciocínio, leitura e escrita. Mas, com certeza, sofri muito porque minha realidade era outra. Era uma das poucas negras na escola, na minha sala, a única. Meu tipo de lanche era diferente: Q-Suco e pão com manteiga. Porém, tudo isso serviu como lição. Minha filha tem condição de estudar em uma escola bilíngue muito boa, com princípios cristãos. Tudo o que eu puder dar ela vai ter, porém com uma cabeça melhor. Ela também é a única negra da salinha dela e uma das poucas da escola também. Essa é a realidade: uma escola melhor, que é paga, não tem muitos negros. Ela já falou para mim enquanto assistia a um desenho: ‘Esse não quero assistir, não tem uma menina da cor do chocolate’. Ela procura, assim como eu procurei… Já tive vontade de ser Paquita, mas era impossível, quando vi a Bombom entrando no núcleo da Xuxa já me deu mais esperança. E assim vai, sei também o que represento.

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Negra Li – www.negrali.com.br

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Um comentário »

  1. Jackie 24 de abril de 2013 em 23:41 - Reply

    Muito feliz pelo sucesso da Negra Li, sou fã desde os tempos do RZO ‘Pode crer’ rs
    Ela é uma inspiração pra mim, exemplo de uma mulher da periferia talentosa e que conseguiu driblar muitas dificuldades da vida e conquistar seu espaço! 🙂

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