Bate-papo com Ney Latorraca

redacao 19 de dezembro de 2014 0

Foto: João Mário Nunes

“EU QUERO, ONDE ESTIVER, TRAZER COISAS BOAS, É DO MEU CARÁTER”

Apresentar o entrevistado Ney Latorraca. Será preciso? Essa figura carismática, que nasceu em Santos, no litoral de São Paulo, em 25 de julho de 1944, quase faz parte da família. Já entrou em suas casas na pele de inúmeros personagens que até hoje são lembrados com carinho.

Filho de um crooner de cassino e uma corista, e tendo como padrinho de batismo o consagrado ator Grande Otelo, desde cedo Ney habituou-se ao meio artístico. Cursou a Escola de Arte Dramática, antes de ela passar a funcionar na Universidade de São Paulo. Ali teve como professores, entre outros, Ziembinsky e Antunes Filho. Durante esse período chegou a trabalhar numa agência bancária e numa loja de roupas femininas para se manter, e em paralelo atuou em diversas peças teatrais.

Dentre as peças, os filmes e as novelas, seriam necessárias algumas páginas para citar os personagens que fizeram sucesso. Alguns dos mais lembrados são o caixeiro-viajante Quequé, da minissérie Rabo de Saia; o velhinho Barbosa, da TV Pirata; o Conde Vlad, na novela Vamp; dentre tantos outros. No teatro, sua atuação mais marcante foi em O Mistério de Irma Vap, em 1986, atuando com Marco Nanini, que ficou 11 anos em cartaz.

Desde que começou a atuar, só parou em 2012, quando se internou para fazer uma cirurgia de retirada de vesícula e acabou tendo uma inflamação nas vias biliares que se espalhou pelo corpo. Foram quase 50 dias na UTI, muitos deles inconsciente, e o ator ainda precisou de vários meses de recuperação até voltar à sua vida normal.

Hoje, com 70 anos de idade e comemorando 50 de carreira, acaba de voltar de Nova York, onde foi representando “Alexandre e Outros Heróis”, especial de fim de ano da TV Globo em 2013, que foi indicado ao Emmy Awards, e prepara-se para o lançamento de seu último filme, Introdução à Música do Sangue, que entra em cartaz em agosto de 2015. Para falar de sua experiência de vida, seu sucesso, Ney conversou com nossa reportagem, simpático e humilde, como se não fosse o gigante que é.

EM DIA – Quando lhe surgiu a vontade de ser ator?
Ney Latorraca – Eu acho que eu já nasci com essa vontade. Eu queria ser artista, cantor… Meu pai cantava, minha mãe também, eram crooners na noite, em cassinos, e eu filho único tinha contato direto com esse universo. E também para sobreviver, eu fazia pequenos números, esquetes, que pudessem render alguma coisa para mim: um presente, um sapato, alguma coisa.

ED – E sempre foi de ser ator, ou você imaginava também de ser cantor…
NL – Não, eu imaginava ser artista, mas muito mais ligado ao canto. Porque eu pensava assim: se for ser um cantor, tenho que saber representar bem pra poder interpretar as músicas. Então no colégio já fazia peças infantis e tinha um conjunto, o Eldorado, eu cantava e representava o que estava cantando. Daí veio a escolha de fazer teatro universitário, escola de teatro e aí o ator ficou mais poderoso que o cantor, e eu fui em frente.

Foto: João Mário NunesED – Que ensinamentos recebeu do seu padrinho, o Grande Otelo?
NL – O principal foi a alegria de representar, o profissionalismo, porque ele trabalhou com a minha mãe, ela fazia dupla com ele no cassino, a Nega do Cabelo Duro, esquetes que eles faziam, então depois eu fui representar com ele, mas só fui trabalhar mesmo com ele em 1979, numa peça chamada “Lola Moreno” Ele é considerado um dos maiores atores que o Brasil já teve até hoje. Nunca passou pela cabeça do Grande Otelo, jamais, essa coisa de ser baixo, ser negro, ele era tão poderoso que nunca deu margem a nada.

ED – É tão bom a gente ter por perto pes­soas felizes…
NL – Claro que eu não gosto de pessoas que vivem às gargalhadas, rindo de um universo que está difícil, mas também pessoas tristes, assim, pra baixo, não têm muito espaço perto de mim não. Eu gosto de brincar, de fazer palhaçada, de imitar as pessoas, agora tem dias que eu quero ficar comigo mesmo, caminhar na Lagoa, pegar um livro ou cuidar de mim. Eu tenho 70 anos, então eu tenho que estar bem, eu tenho que decorar cem páginas, entrar num palco, dançar, cantar, falar, voltar, dar entrevista, então você tem que estar inteiro. Tem que se cuidar. E você veja que mesmo assim há dois anos atrás eu passei por um momento difícil, uma disfunção do meu organismo, mas consegui sair porque estava muito bem cercado, por médicos, pelos meus colegas de classe, pelos meus amigos, pela TV Globo. E o amor, também, porque o amor é um grande remédio…

ED – Que lições tirou desse momento?
NL – Os valores mudam completamente, os tapetes vermelhos da vida desaparecem, porque o que interessa é você poder tomar um bom banho, poder sentar na mesa, tomar o seu café, se enxugar, poder dar uma entrevista, eu estava no hospital de um jeito que eu não podia fazer nada, não podia andar, eu tenho 1.80m e fiquei, sei lá, com 40 quilos, aí você vê que é o cotidiano que é o maravilhoso, o cotidiano que é o rico, que é o genial da vida, que passa batido… Esses valores passam a ter muito mais importância.

“EU GOSTO DE UM BOM PERSONAGEM, SEJA DRAMÁTICO, CÔMICO, TRANSGRESSOR, TEM QUE SER UM BOM PERSONAGEM, QUE VÁ ACRESCENTAR PRA MIM ALGUMA COISA E QUE EU TAMBÉM POSSA COM ESSE PERSONAGEM DAR UM RECADO, LEVAR UMA MENSAGEM. SEMPRE.”

ED – Você já afirmou que não gosta de se assistir na TV, por quê?
NL – Porque eu sou muito crítico, eu olho e falo: “Nossa senhora, eu não devia ter feito isso….” Por isso demoro, muitas vezes vou assistir 10 anos depois. Uma coisa que eu fui ver agora, que eu não conhecia, foi a TV Pirata, achei ótimo. Aí eu vi que o programa era muito bem feito, que a direção do Guel Arraes era ótima, que nós estávamos muito bem, que era um humor inteligente. De um alto nível.

ED – Qual o lado bom e o lado ruim da sua profissão?
NL – O lado bom é poder viver várias vidas, viver as fantasias todas, não precisa nem fazer terapia, você bota todos os fantasmas pra fora… O lado ruim é perder uma certa privacidade. Porque também eu fiz de tudo na minha vida pra ser conhecido, para ser um ator popular, mas tem horas que você também quer um pouco de privacidade. Por exemplo: eu adoro dar autógrafo, tirar fotos, mas eu não gosto de estar sentado na mesa, quando estou comendo, alguém vem, fica do meu lado, bate na minha cabeça, me arranca o boné e fala: Vamos lá fazer a foto… Ora, isso eu acho um absurdo. Eu falo: Espera eu acabar de comer! Agora, se eu não estou fazendo nada, qual o problema de eu tirar uma foto? Dar um autógrafo? Faz parte. É o público que põe o feijão com arroz na minha mesa. Eu devo meu sucesso a eles.

ED – E são uma parte muito importante do processo todo…
NL – Claro que sim, eu já tenho gerações que falam do Volpone, do Quequé, do Ernesto dos Anarquistas, do Barbosa, do Cornélio, que falam do teatro, da Irma Vap, que ficou 11 anos em cartaz, então tem um público que tem uma fidelidade… São 50 anos de carreira!

ED – Quais atrizes e quais atores da nova geração e os antigos que você mais admira?
NL – Gosto da Renata Sorrat, Marília Pêra, que é minha madrinha de teatro, Giulia Gam, Débora Falabela, um sucesso essa moça, boa atriz. Gosto do Daniel Oliveira, que fez Cazuza, acho bem interessante. Daí tem uma turma nova que vem chegando, que são ótimos atores, são versáteis, cantam, dançam musicais, como o Tiago Abravanel, que fez o Tim Maia, maravilhoso. Gosto do Rodrigo Santoro, que bonito o comportamento dele, é uma estrela, trabalha nos Estados Unidos, mas não é deslumbrado, tem o pé no chão.

ED – Mudando um pouco de assunto, como você enxerga o acesso dos brasileiros à cultura?
NL – Eu acho muito difícil, porque a gente tinha essa iniciação no colégio, antigamente existia e agora acabou. Eu fiz colégio em escola pública, em Santos. Eu tinha uma estrutura ali dentro. A gente tinha aula de canto orfeônico, de inglês, francês, latim, em literatura você lia os livros, os clássicos brasileiros como Machado de Assis e José de Alencar, por exemplo, lia o livro e fazia um resumo, um livro por mês. Meus professores eram minha segunda família, quando a gente se formava, a gente tinha uma estrutura muito poderosa. A gente ia ver peças de teatro, shows, de repente, eu sinto falta disso, não é uma nostalgia não, mas a gente tinha que apostar no ensino, acho que a educação e a saúde deveriam ser primordiais. Os professores receberem muito bem, serem muito bem tratados…

Foto: João Mário NunesED – Você gosta de andar de metrô, de ônibus pela cidade, o que o aproxima muito do seu público. Como é esse contato com o público?
NL – Maravilhoso. É muito bom ver as pessoas. Você ficar enfiado dentro de uma torre… eu não sou ator de Hollywood, não posso ficar distante, andar com 20 seguranças, é mentira isso gente! Eu vou andando a pé, desço a escada rolante, pego o metrô. Aí vejo as pessoas, você tem que ter isso, isso te renova, eles são geniais, os personagens são maravilhosos, todos. Você vê os figurinos, as roupas, os perfumes… ponto de ônibus é uma loucura. Tem aquele de mochila, tem o que tomou banho, tem a de maria-chiquinha, é muito interessante isso.

ED – Você costuma dar entrevistas, cami­nhar na Lagoa Rodrigo de Freitas…
NL – Eu faço parte da Lagoa já. Pareço a capivara, estou solto na Lagoa…

ED – O que ela representa pra você?
NL – A minha liberdade. Você poder ver a natureza. Então eu faço ali minha caminhada, de aproximadamente 8 km, vejo as pessoas, aí volto pra casa, tomo meu banho. Depois desse ritual, eu fico com muito mais vigor. Às vezes, quando estou gravando eu faço isso de manhã, quando eu chego no estúdio, estou muito mais forte.

ED – Você já disse em entrevistas que seus herdeiros são o Retiro dos Artistas (RJ), a Associação Beneficente de Reabilitação, o Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS de Santos e a Hanseníase de Campo Grande. Você realiza algum tipo de trabalho nessas instituições?
NL – Quem me deu essa ideia foi minha mãe… Sempre que eu posso, sim. Fico por lá pra passar o Natal com eles… Pra mim, é mais importante isso que a minha própria carreira. Eu não tenho interesse nenhum em receber aplausos, prêmios, sem ter feito nada em troca. Sou uma figura pública, e eu uso pra isso: para as crianças do GAPA, à Hanseníase, ao Retiro e à ABBR, que ajuda as crianças que precisam de aparelhos. Mas tem que ser um processo natural, não posso forçar as pessoas a fazerem o bem.

ED – Por fim, quais são os seus projetos futuros?
NL – Dezembro, gostaria de conhecer Istambul. Talvez eu faça uma novela no próximo ano. E estou com um filme que acabei de fazer, do Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, que dirigiu o filme Leila Diniz, que chama Introdução à Música do Sangue, e chega aos cinemas em agosto de 2015.

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