Paulo André muito além dos gramados

redacao 24 de outubro de 2012 0

Nascido em Campinas, no dia 20 de agosto de 1983, Paulo André Cren Benini começou a sua carreira como jogador de futebol aos 15 anos no time infantil do São Paulo. E ao longo de sua trajetória passou pelo Centro Sportivo Alagoano, pelo Águas de Lindóia, Guarani e Clube Atlético Paranaense, onde ganhou destaque como um dos cinco melhores zagueiros do Brasil pela Revista Placar. Com 22 anos, o atleta fechou um contrato com o Le Mans Football Club da França. E em 2009, alcançou seu sonho de criança ao ser apresentado ao Corinthians. Porém, em 2011 o zagueiro passou por uma cirurgia no joelho esquerdo e ficou seis meses longe dos gramados. Recuperado, voltou a jogar em outubro do mesmo ano, conseguiu a almejada vaga no time e ganhou o pentacampeonato brasileiro, sendo premiado também com o troféu Bola de Prata como melhor zagueiro do campeonato. Em julho de 2012, conquistou o tão esperado título da Libertadores da América com o clube do Parque São Jorge.

Essa parece uma história comum de mais um jogador de futebol, mas Paulo André não é reconhecido somente pelo seu trabalho em campo. Entre concentrações, jogos e treinos, o atleta consegue se dedicar à literatura, pintar quadros, jogar xadrez e, desde 2010, mantém o site Paulo André Oficial, no qual publica textos sobre a política do futebol e a situação do esporte no País.
Além de tudo isso, ainda encontra tempo para cuidar do Instituto Paulo André, entidade fundada por ele em 2011 a fim de proporcionar educação e formação de caráter por meio do esporte e da cultura para crianças e adolescentes carentes.

E Paulo André não para por aí. Em março deste ano lançou o livro “O jogo da minha vida – histórias e reflexões de um atleta”, obra de 304 páginas que foi escrita durante o Campeonato Brasileiro do ano passado, tornando-se o primeiro jogador de futebol em atividade a escrever e publicar um livro. É inevitável não se espantar com as qualidades do jogador, que ainda estreou recentemente como modelo para a campanha da marca internacional de perfumes Hugo Boss.

Centrado e com vontade de falar o que pensa, Paulo André, que teve incentivo de pessoas como Sócrates, encontrou a equipe da Revista Em Dia para um agradável bate-papo sobre futebol, política e cultura. Confira!

EM DIA – Jogador de futebol, escritor e modelo. Você se preparou para tudo isso ou apenas aproveitou as oportunidades?
PAULO ANDRÉ – Estou simplesmente sendo eu. As pessoas falam: “Oh! é um jogador diferenciado”. E digo: “Sou uma pessoa comum”. Todo mundo trabalha, joga uma “pelada” e depois gosta de tomar um vinho, de ir ao cinema e ter hobbies. O que faço hoje é notícia, não pelo Paulo André, mas por ser um jogador que está exposto. Já fazia tudo isso antes de jogar no Corinthians e antes mesmo de ser jogador profissional, mas hoje acaba sendo um diferencial porque os meus colegas talvez só joguem futebol.

ED – Em março, você lançou o livro “O jogo da minha vida – histórias e reflexões de um atleta”. Como tem sido a repercussão?
PA – A crítica foi muito positiva em relação ao conteúdo e à maneira como foi escrito. Isso está me deixando muito feliz e orgulhoso. Acho que é uma leitura fácil e está atingindo um público que talvez não tivesse o hábito de ler. Esse também era um objetivo meu: tentar mostrar que ler é legal. O brasileiro lê em média três livros por ano, o americano lê mais de 20, ou seja, precisamos melhorar isso. Culturalmente falando acho que livros de esporte aproximam o ídolo do público e acabam ajudando, principalmente o jovem, a ter esse gosto pela leitura.

ED – Entre os jogadores, você já viu alguém na concentração lendo o seu livro?
PA – No Corinthians bastante gente leu logo que lançamos e se identificaram, pois a minha história, as crises e os medos, é mais ou menos o que acontece com todos os jogadores, principalmente quando saem de casa cedo. Surpreendentemente em um final de semana, enquanto jogávamos na Bahia, o atacante Júnior, que era meu adversário naquele momento, me falou: “Estou lendo! É incrível! Precisamos conversar”. E respondi: “Legal, mas deixa acabar o jogo, pois estou concentrado aqui”. Quando acabou a partida, o zagueiro Dani Moraes também comentou sobre o livro… Falei: “Vamos trocar Twitter, Facebook, tentar mexer com a nossa classe para que possamos reivindicar mais direitos, melhorias para os futuros jogadores”. E quando cheguei para fazer o exame antidoping, estava o Júnior e o Dani. O Júnior abriu a bolsa e falou: “Paulo, quero uma dedicatória sua”. Sem brincadeira, morri de orgulho. Foi um prazer escrever esse livro contando a minha história, mas ver o que se pode atingir com ele foi demais.

ED – Você falou da adesão de outros jogadores e que, de alguma forma, a classe está evoluindo. Teve algum que lhe inspirou?
PA – Tive muito contato com o Sócrates nos últimos dois anos de vida dele. Era um ídolo pelo que fez no futebol, pelas ideias e pelo comportamento político e social. Foi a partir do momento que o conheci que tive coragem de falar o que penso. Ele falava: “Paulo, você vai ser criticado falando certo ou errado. Nunca vai agradar a todo mundo, então não deve ter medo de falar se tiver embasamento para isso. Põe para fora e toca a sua vida, não fica segurando não”. Por eu ter frequentado a casa dele e por várias discussões que tivemos comecei a ser mais político, mais crítico das coisas.

ED – No Corinthians você é visto como o intelectual do time?
PA – Eles me sacaneiam… mas acho que também passaram a me admirar. Quando alguém tem um problema com negociação, família, investimento me chama de canto para pedir minha opinião. Também gosto deste lado, é legal poder aconselhar e ajudar. É claro que não sei tudo, mas acredito que eles me veem como um caso à parte.

ED – Até o começo dos anos 80, havia histórias de grandes jogadores que perderam tudo porque não souberam administrar e de outros que tinham muito talento, mas eram mal assessorados. Hoje como você enxerga o papel do empresário?
PA – Acredito que o jogador precisa ser assessorado, até falo no meu livro que sou eu quem contrata o empresário, ele é meu funcionário. Sou eu quem decide as coisas e ele me dá as ferramentas para eu tomar a melhor decisão. Vemos que dentro do futebol é ao contrário, é o empresário quem escolhe, quem sugere algumas coisas, e o jogador acaba engolindo aquilo por não ter opções ou conhecimento de causa. Então, em primeiro lugar, é impossível que isso mude se o jogador não procurar conhecer seus direitos. Mas acredito que realmente está evoluindo, a classe é muito melhor e tem mais conhecimento do que tinha nos anos 1960, 1970. O problema é que a maioria dos jogadores vem de uma classe baixa e não tem uma condição educacional boa. E há essa dificuldade quando eles chegam a ganhar dinheiro e não têm base familiar.

ED – Você teve essa base familiar?
PA –Saí de casa com 14 anos, mas eu tive ótimos exemplos dentro de casa. Meu pai e minha mãe sempre trabalharam, tinham bons empregos e estudei até a 8ª série em colégio particular. Eles sempre tiveram hábitos pela leitura e gostavam de viajar. Quando fui tocar minha vida tinha esses exemplos e fui, mais ou menos, seguindo esse caminho. Por isso sempre falo que a escola da vida é mais importante que o colégio ou a faculdade, mas desde que você tenha essa base inicial para que possa se direcionar e fazer as escolhas corretas.

ED – Com essa nova carreira de escritor e de modelo, você criou uma visibilidade muito grande. Como o clube vê isso?
PA – Antes eu era um pouco inseguro nessa questão, ou seja, precisava jogar muito bem para ver se podia falar alguma coisa. Eu me bloqueava naquela linha que o futebol hoje exige: “Vai jogar e ficar quieto, tem que trabalhar e acabou”. Depois comecei a falar e a expor esse lado humano do atleta. Acho que fui muito bem aceito, estamos sempre discutindo com o clube e a assessoria. Brincando eles dizem: “Você está complicado, agora virou modelo (risos)”, eles mesmos tiram sarro.

ED – Seu primeiro contato com o Ronaldo foi no Corinthians? Como foi jogar com ele?
PA –Sim. Foi um sonho, lembro que estava na França há três anos e meio, e quando fui me despedir todos os jogadores do time falaram: “Paulo, dá um abraço no Ronaldo, ele é o meu ídolo”, ou seja, da minha geração ele foi o melhor jogador que vi. Quando cheguei no Corinthians foi aquele respeito. Você olha o cara, cumprimenta todo mundo, e quando chega na vez dele pensa: “Será que cumprimento? Será que pode, não pode?” Mas ele me tratou muito bem. Passaram-se alguns dias e eu o vi fazendo um exercício na sala de musculação e falei: “Ronaldo, fiz uma cirurgia no mesmo hospital que você na França, com o mesmo médico, só que a minha deu errado. Era um hospital público deplorável, muito melhor que o nosso, mas tinha uma condição ruim. Minha mãe ficou seis dias dormindo em uma cadeira e a enfermeira chegava e jogava as roupas e falava: ‘Se troca, abre a janela e limpa o quarto’. No Brasil o pessoal cuida de nós, ficam amigos, nos tratam bem. Você operou naquele hospital, você escolheu e podia operar onde quisesse!”. Ele falou: “Paulo, minha mãe também dormiu cinco dias na cadeira e também ficava escutando aquela gritaria à noite, daquelas pessoas largadas, porque não tinham enfermeiras suficientes, mas foi o único médico que acreditou que eu ainda poderia jogar, então confiei nele”. Eu já gostava do cara e ele ainda diz um negócio desse, então falei: “Realmente você é meu ídolo”. Me lembro também que fazíamos muita pré-temporada em Itu e tínhamos a mania de jogar pôquer, então um dia ele foi lá no quarto para jogarmos e dali para frente nós ficamos amigos próximos, e eu observava muito dentro de campo o que ele fazia. Ele pensava cinco minutos na frente de qualquer um. Quando alguém via duas ou três saídas para uma jogada, ele via sete ou oito, ou seja, um cara que não sei se dá para explicar, é gênio, diferente.

ED – De uma forma indireta ele também está lhe influenciando nessa pluralidade do seu trabalho? Quando você se aposentar pensa em trilhar alguma coisa parecida ou até junto com o Ronaldo?
PA – Provavelmente. Brinco com ele: “Olha, quando eu parar quero um lugar aqui na 9ine. Deixa meu lugar separado” (risos). Mas, tenho alguns sonhos, com certeza no meio do esporte. Sou apaixonado pelas Olimpíadas, se pudesse ajudar os esportes olímpicos também faria com o maior prazer. Ou um cargo político, diretivo e se não der nenhum dos dois, treinador… quero ficar dentro do esporte.

ED – Você jogou em vários times. Como é lidar com uma torcida tão fanática como a do Corinthians?
PA –Eu me lembro do dia em que fui apresentado aqui, em julho de 2009. Naquela ocasião que dei entrevista fiquei mais conhecido do que todo o trabalho que já tinha feito até então. Tudo é grande, tudo é mais para o bom e o ruim. Isso aqui é um caldeirão em ebulição. Agora, o carinho da torcida fora do campo, a força que a torcida tem lá dentro de campo é uma coisa que não tem explicação, arrepia. Eu tinha um sonho, a família inteira corintiana e eu também, saí da França e falei: “Quero realizar meu sonho, acabou, o dinheiro é legal, importante, mas não tem nada mais legal do que realizar sonho e se sentir satisfeito com aquilo que você faz”, foi por isso que voltei, pelo Corinthians, e estou realizando esse sonho até hoje. Até brinco que só vou sair daqui se me jogarem fora, vou ficar até o final, porque eu sou apaixonado, adoro treinar, adoro o dia a dia, adoro ir lá e ver o estádio pulsando, é um sonho de criança que estou realizando.

ED – Mudando de assunto, em 2011 você fundou o Instituto Paulo André. Como funciona esse trabalho?
PA – Trabalhamos em uma comunidade carente em Campinas com 100 famílias que vivem praticamente na linha da miséria, são cerca de 250 crianças. Estamos iniciando um projeto voltado para a educação com 40 crianças, que é o número que consigo abraçar nesse momento. Temos pouquíssima ajuda, recebemos pouca doação, sou eu quem toca mais o barco e acho que é um número razoável para quem é iniciante. A ideia é tentar trabalhar a alfabetização e a questão familiar dentro das práticas esportivas. Mas, ao mesmo tempo, passar valores de cidadania e moral para que elas possam se desenvolver e futuramente fazer as suas escolhas, assim como fiz na minha vida.

ED – Você possui algum parceiro nessa associação?
PA –Não, eu toco sozinho. Minha mãe é a coordenadora, tenho um primo que faz tudo. Temos também uma lista de quase 100 voluntários, pessoas próximas, amigos e parentes, ou seja, o pessoal que ajuda no dia a dia para que aconteça. Entregamos 100 cestas básicas por mês e cuidamos da boca de 90 crianças. Levamos 100 crianças ao teatro, 180 ao cinema e ao shopping pela primeira vez na vida. Estamos cuidando da parte oftalmológica também, só que tudo depende de voluntariado porque, infelizmente, não temos condições de bancar tudo, mas estamos tentando um projeto bem legal e aí sim começar a captar parceiros. Temos uma empresa que cuida do site, a Cyber Group, e o pessoal da cesta básica, que faz um desconto. Então cada um ajuda de uma forma, mas parceiro na parte financeira não tem…

ED – Com a rotina de treinos e jogos, como você concilia essas atividades?
PA – É outro sonho que na hora que estiver pronto o pessoal diz: “Pô, mas inventou de fazer isso?” Estamos já há dois anos batalhando. São um ou dois dias na semana que tenho que visitar, tomar decisões, fazer reunião.
E uma coisa que quero, e sempre tento deixar claro, é que nenhuma dessas atividades extracampo atrapalhem o meu dia a dia. Sempre tento ser o primeiro a chegar e o último a sair, trabalho exatamente para que não deixe margem para alguém falar: “O Paulo está inventando um monte de coisas e esqueceu de jogar futebol”.

ED – Falando em tempo para se dedicar, em sua opinião, ficar na concentração ajuda ou atrapalha?
PA – Quando jogamos de 4ª e domingo ela ajuda, porque você descansa, se alimenta bem e consegue se isentar de todos os problemas da sua casa. Você não tem atividade física, não precisa ir ao banco pagar uma conta. Você está preso e não pode se mexer muito, então você vai descansar. Mas ao mesmo tempo você abdica da sua vida, vive futebol de janeiro a dezembro e não tem outra atividade, não tem tempo para estudar, para se preparar, para se divertir, para ter contato com o seu filho, são mais ou menos 150 dias no hotel de 365 dias que temos no ano. Fora os treinos, se não me engano, de janeiro a maio tivemos apenas oito dias de folga. E o pessoal fala: “Vida de jogador é uma delícia, só joga bola, ganha dinheiro”. Dificilmente alguém no dia a dia normal aguentaria essa pressão, essa exigência de cobrança, de mídia, de torcida, e nós estamos ali tentando resistir e quando erramos… Eu costumo falar: “Erro porque sou ruim, não porque estou distraído, não” (risos).

ED – O futebol é um trabalho como qualquer outro. Temos aquele profissional que veste a camisa e outros nem tanto. Na sua visão, o que faz o jogador vestir a camisa?
PA – O grupo de trabalho é importante, ou seja, o jogador respeita o treinador, o clube, a entidade, mas principalmente o companheiro. Se ele está lá “ralando” e “fazendo acontecer” no dia a dia, o outro vai olhar e falar: “Se ele está fazendo preciso fazer também”. Se tiver um grupo forte com alguns pilares importantes de trabalho e determinação, de honrar a camisa, você consegue levar três ou quatro que normalmente não fariam dentro dessa linha. Acho a posição do treinador fundamental também, como ele atua no dia a dia, nos treinamentos, na concentração e nas palestras, porque ele é o exemplo a ser seguido e a cobrança dele vai ser refletida nas atitudes dentro do campo. Hoje se o cara não se dedicar, não conseguirá jogar bonito, a exigência é muito alta. Existem alguns caras que talvez não se dediquem tanto, mas é uma exceção. E, infelizmente, esses casos são retratados na grande mídia e acabam prejudicando um pouco a imagem da classe.

ED – Com a sua experiência na Europa, você acha que em termos de organização o Brasil está muito longe ou estamos no caminho certo?
PA – Olha, estamos bem longe no quesito organização. Não sei se estamos no caminho certo e não consigo enxergar o caminho em que estamos. Muita gente critica e aponta os defeitos, mas dificilmente vemos alguém indicando um caminho. Todos sabem que os gramados são ruins, mas como melhorar? O calendário é ruim, mas o que fazer para ser melhor? E estou falando dos órgãos que regulamentam e coordenam. Se os jogos têm público baixo, como fazer para atrair torcedores? Como vender esse produto, futebol brasileiro, que até pouco tempo atrás era o melhor do mundo e o mais desejado? Nós nunca conseguimos encher todos os estádios como acontece na Alemanha ou na Inglaterra. E esses pequenos detalhes têm que ser tratados com mais seriedade, com mais organização. Precisamos saber onde nós estamos, onde queremos chegar e como vamos fazer para chegar lá e isso não vemos acontecer. Depois de todos esses problemas com seleção, de dificuldade em resultados e tal, começamos a ver uma leve movimentação, mas não sei se será para agora. Acho que vai demorar um pouco mais, que novas pessoas terão que chegar com novas ideias.

ED – Quando falamos em campeonatos e estrutura dos clubes, você não acha que o caminho poderia ser mais privado?
PA – Temos alguns bons exemplos de entidades privadas… Na première inglesa era exatamente assim, em 92 eles mudaram completamente todas as regras que giravam em torno do futebol da Inglaterra e conseguiram fazer hoje o melhor campeonato do mundo, ou pelo menos o mais rentável. Na NBA a mesma coisa, quando o David Stern pegou era um campeonato bom, mas não era o que é até hoje, então acredito muito que a formação de uma liga vendendo um produto futebol, talvez fosse mais rentável. Agora, não é puxando o saco, mas o Corinthians há quatro anos tem um projeto definido. E assim ele aumenta a sua receita a cada ano, se organiza cada vez melhor. Hoje há identificação de talento, ou seja, o clube contrata jovens talentosos de acordo com as suas necessidades. Existe essa preparação para substituir jogadores que possam deixar o clube. Isso tem sido feito desde a época do Mano, acho que é mérito do Edu Gaspar, do Duílio Monteiro e do Roberto, que tem mantido essa prática. E vemos a diferença que dá. Em todo o campeonato que disputamos, brigamos pelo título. Não que antes não brigássemos, mas hoje não parece tão difícil chegar entre os cinco primeiros. É uma questão estrutural, se houver organização, o clube estará anos-luz à frente dos outros. Você pode perder, futebol é um jogo, mas a chance de perder é muito menor.

ED – Agora com relação à Copa do Mundo, há uma insegurança sobre a organização do evento. Você acredita que conseguiremos fazer uma boa Copa?
PA – Tenho certeza. Infelizmente nesses casos os fins não justificam os meios, ou seja, nós vamos fazer bonito. Sempre que o Brasil se dispôs a fazer uma coisa, conseguiu fazer bem feito. Estamos muito focados nos estrangeiros, mas não estamos nem um pouco preocupados com quem vive aqui, com as melhorias que serão deixadas para a sociedade, seja aeroviária, aeroportuária ou estrutural. Na minha opinião, infelizmente, o que teremos depois da Copa serão estádios melhores e mais modernos para as equipes de futebol. E a fomentação do esporte como forma de educação e incentivo para tirar as crianças da rua pouco vai mudar porque não temos nenhum projeto… Será só o legado esportivo e o grau de felicidade dos brasileiros naquele mês de competição, depois disso pouca coisa do gasto exorbitante que está sendo feito ficará para a população.

ED – Mas você não acha que a realização da Copa aqui possa incentivar principalmente as crianças, que verão os ídolos de perto?
PA – Então, mas esse é o mínimo, é o esporte pelo esporte. Vamos ver o jogo e falar: “Que legal, Copa do Mundo no Brasil, vou praticar o esporte porque vi na TV.” Mas e a estrutura para a prática do esporte? Os meninos que têm condições vão para a escolinha, praticarão na escola… mas para o povo mesmo nada vai mudar. Eles terão que continuar a praticar lá na comunidade, no meio de um campinho, não terão acesso a um projeto público de incentivo ao esporte em geral, não enxergo isso… Tivemos o Pan-americano de 2007 e o que ficou de legado? Nada, só dívidas e contas. O Engenhão acabou de ser vetado porque o gramado é péssimo e o estádio nunca lota porque é distante, para chegar lá é ruim e perigoso. Querem derrubar as arenas olímpicas de ciclismo para fazer outras para as Olimpíadas e assim por diante… Ou seja, nada ficou, a Vila Olímpica não funciona para as Olimpíadas… esse é o jeitinho brasileiro. Quando se mora fora temos orgulho e falamos: ‘Olha o jeitinho brasileiro, dá jeitinho em tudo’. Depois nós vemos que é exatamente isso que prejudica o nosso país. Qualquer relação, seja política ou social, seja no trânsito… o desrespeito que um tem para com o outro é um negócio vergonhoso, todo mundo quer tirar vantagem… E ninguém diz: ‘Vamos trabalhar, planejar para depois fazer correto’. Esse é um problema cultural, agora no julgamento do mensalão, se houver uma punição severa servirá de exemplo para que os próximos não façam as mesmas coisas…

Serviço: www.pauloandreoficial.com.br

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